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Cinema Sonoro

20 Dias antes da filmagem do exterior a que aludimos, um dia de chuva por sinal, havia-mos ido ao Lumiar assistir a outros trabalhos. Filmavam-se umas crianças que representavam o auto da «Princesa Magalona». A Milú, um talento precoce, aguardava a sua vez. Mais adiante outras garotas garantem-nos que se trata de uma filmagem infantil. E era mesmo. Lá estava o Rafalex ensinando três miúdos a dançar o fandango. Junto da objetiva Aquilino Mendes, auxiliado pelo seu assistente José Queiroga, trabalhava na afinação de luzes. Era um interior de responsabilidade. Alguém bate-nos nas costas. Damos de cara com Vieira de Sousa, que está montando a «Aldeia». É a primeira vez em que numa montagem não intervém um estrangeiro. Tudo nos leva a crer, pois que «Aldeia da Roupa Branca» obtenha um assinalável êxito. CRITICA EXTRAÍDA DA REVISTA «CINE-JORNAL» 10101
10100 Beatriz Costa, sem dúvida a nossa primeira vedeta do teatro musicado, é duma simpatia sem limites. Nos seus gestos, nas suas palavras não há sombra de vaidade. É a mesma Beatriz de sempre, aquela Beatriz que o público se habituou a estimar. Sempre que entrámos no estúdio, lá a vemos. Está encantadora no seu traje de saloia de Caneças. Bota alta, saias de balão, um lenço puxando os cabelos, a Beatriz criou um «tipo característico». Falamos da «Aldeia». Beatriz mostra-se entusiasmada. Há muito que sonhava desempenhar o papel que há semanas lhe confiaram, e há muito que lho haviam oferecido. Mas, só agora, a «Aldeia da Roupa Branca» passou do argumento para a realização. E Beatriz põe toda a sua fé naquele filme. A figura que está a interpretar parece ter sido escrita propositadamente para ela. Deixámos Beatriz relendo os diálogos do seu papel, e damos uma volta pelo «decor», onde já se está trabalhando. Santos Carvalho, aproveitando um intervalo, dorme uma riquíssima sesta como qualquer saloio que se presa. Afirmam-nos que Manuel Santos Carvalho vai bem que se farta. A naturalidade de representação e o à-vontade com que diz, impõe-no como grande ator de cinema. Na «Aldeia» faz de padrinho da Beatriz. Alguém que está ao nosso lado comenta: «Se aqui estivesse o Óscar, ele não dormia!». É verdade, faltava o Óscar de Lemos, da «Canção da Terra» e que na «Aldeia da Roupa Branca» vai confirmar os seus créditos de artista. Começou a filmar-se. A cena representa os preparativos para o dia da festa. Fazem-se bandeiras, e preparam-se as decorações. O Antero Faro, sempre atento, como esplendido assistente que é, não perde um único momento. Fernando Barros, «doublé» de caracterizador e assistente geral, não tem também, um minuto de descanso. As filmagens prosseguem. 580
  Nas traseiras dos edifícios da «Lisboa Filme» construiu-se uma aldeia. Não julguem que se trata de um «pastel» sem ambiente, sem perspetiva, sem interesse visual. Pelo contrário. A aldeia é, no seu género, um belíssimo trabalho. Nada faltou. O espírito de observação do seu autor, Arlindo, nota-se a cada instante. Lá está a capelinha, com o seu estilo característico; as casas baixas, de uma porta e uma janela; as abóboras, como brasões de antepassados; o largo onde a rapaziada passa o seu tempo, e onde se realizará um dos maiores «clous» da «Aldeia da Roupa Branca», o encontro das duas bandas, no dia da festa. Enquanto os foguetes estoiram no ar, e o público em massa, se dirige para o largo, surgem, uma de cada lado, as duas filarmónicas. Ambas querem alcançar o coreto. Dá-se o choque e, não contámos o resto para não roubarmos o interesse desta cena que, cinematograficamente vai dar que falar. Constituindo um número de planos muito razoável, o encontro das bandas far-se-á no final das filmagens. Ninguém dirá, a não ser quem o saiba de antemão, que a aldeia é fictícia. Já houve até quem lhe chamasse a «Aldeia mais portuguesa de Portugal».
89 Com um método de trabalho modelar e uma disciplina que se pode reputar de exemplo, as filmagens de «Aldeia da Roupa Branca» avançaram sempre a bom ritmo. Os diálogos do Dr. Ramada Curto são primorosos. Não há literatura. Há a linguagem que fala aquela boa gente. Aquela linguagem muito nossa conhecida, até por tradição. Os versos, da autoria do Dr. Tomaz Ribeiro Colaço são, também populares. Junte-se-lhe a música dos maestros Raúl Portela e Raúl Ferrão, e teremos números que ficarão «no ouvido». Tudo nos leva a crer pois, que a «Aldeia da Roupa Branca» obtenha um justificado êxito. 10
14 Intérpretes: Beatriz Costa - Gracinda / José Amaro - Chico / Manuel Santos Carvalho - Tio Jacinto / Elvira Velez - Viúva Quitéria / Óscar de Lemos - Luís / Armando Machado - Zé da Iria / Hermínia Silva - Maria da Luz, a Fadista / Octávio de Matos - Simão / Jorge Gentil - Chitas e ainda: Maria Salomé; Mário Santos; Milú; Aida Ultz; Sofia Santos... Realização - Chianca de Garcia / Produção - Espectáculos de Arte / Diálogos - Ramada Curto / Fotografia - Aquilino Mendes e Octávio Bobone / Música - Jaime Silva Filho. 17
15 Argumento: A vida, costumes pitorescos, quezílias e paixões dos populares que se encarregam da lavagem de roupa dos Lisboetas, indústria artesanal, mas competitiva onde se destaca a rivalidade entre o Tio Jacinto (Manuel Santos Carvalho) e sua afilhada Gracinda (Beatriz Costa) e a Viúva Quitéria (Elvira Velez) e seu filho Luís (Óscar de Lemos). 16
-012 Curioso será que após a estreia deste filme já no início de 1939 no cinema Tivoli, tanto Chianca de Garcia como Beatriz Costa partem rumo ao Brasil, para tentar aí uma carreia artística. A 15 de Novembro de 1943 estreia em Madrid, Espanha, o filme "Aldeia da Roupa Branca" com o título de "Ropa Blanka", onde obtém assinalável êxito. O mesmo acontece no Brasil, e é devido ao seu enorme êxito, que faz com que Beatriz Costa parta para lá. 18
6 Beatriz Costa, a grande vedeta do teatro ligeiro, na protagonista da história, papel que assentava como uma luva ao seu temperamento de comediante, proporcionou-nos a melhor das suas interpretações cinematográficas, pela sadia vivacidade, alegria comunicativa, transbordante simpatia que irradiava da sua atuação. Dava-lha a réplica, com muito acerto, um núcleo de intérpretes onde se incluíam os nomes de Manuel Santos Carvalho, José Amaro, Óscar de Lemos, Elvira Velez, Armando Machado, Hermínia Silva, Octávio de Matos, Maria Salomé, Sofia Santos e o ciclista Joaquim Manique. Como colaboradores de Chianca de Garcia no sector técnico encontravam-se Aquilino Mendes, que pôs no filme uma luminosa fotografia, o grande especialista de montagem que foi Vieira de Sousa, responsável por um dos melhores momentos do filme, a famosa corrida das galeras, trecho digno de antologia, os compositores Raul Portela e Raul Ferrão, que sublinharam o filme de música inspirada.    
1 Este filme de Chianca de Garcia, filme genuinamente português, era um sonho que o realizador acalentava desde 1933. Aliás foi por pouco que o filme "Aldeia da Roupa Branca" não foi o primeiro filme da Tobis Portuguesa. Na altura, os responsáveis da Tobis optaram pelo filme de Cottinelli Telmo "A Canção de Lisboa". Agora em 1938, Chianca de Garcia recebe luz verde para o seu filme, e assim nasce "Aldeia da Roupa Branca". O filme é ambientado numa aldeia próxima de Lisboa, onde as mulheres locais lavavam a roupa dos habitantes da capital. O filme centra a sua história na rivalidade de duas dessas empresas, a do Tio Jacinto, papel magistralmente interpretado pelo actor Manuel dos Santos Carvalho, e a da viúva Quitéria, outro papel memorável que marca a estreia no cinema de uma grande actriz de teatro, Elvira Velez. 3
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