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Cinema Sonoro

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— Vamos. Tem coragem! Levanta-te, sai daí e vai trabalhar. És tão preguiçoso... - Falava Clara Serrano, diante de um fonógrafo, ensaiando os primeiros passos da nova dança que estudava para o acto de variedades ao qual pertencia. Já tinha cuidado de tudo, arrumado o quarto todo. Exercitava-se, pela luta da vida e aborrecia-se muito vendo a indolência de Jim, estirado sobre o leito, preguiçoso como ninguém e desalentado como nenhum outro. — Deixa-me em paz! Dança! Dança! até que te arrebentes... – diz-lhe o marido Eram palavras assim que ela ouvia sempre. Estavam casados há já algum tempo e embora amasse o marido com toda a sua força, nada mais fazia ela, do que sustenta-lo e ouvir-lhe os desaforos. Jim dormia e Clara fazia todo o serviço e ainda ensaiava para os bailados da noite. Ele tinha sido "chauffeur", mas depois de entrar para a vida de teatro, acha-a deliciosa e já não queria fazer mais nada. Mas o primeiro passo que ele e a mulher haviam dado para vencer, na arte, fora um tremendo fracasso. Clara conseguira colocar-se e ao esposo num número de variedades e, quando estrearam, foram os mais completos insucessos que já se haviam visto em todo o mundo. Ela desanimara um pouco. Passara a estudar com maior carinho, com maior dedicação. Ele, entretanto, vagabundo de origem, preferia continuar a dormir, sem ligar a nada, certo de que ela cuidaria de tudo, inclusive pela manutenção do lar... A vida, para ambos, faz-se um tormento. A senhoria não os deixa. E dinheiro não há para pagar os alugueres em atraso. A companhia de gaz acabara de cortar o combustível por falta de pagamento e, assim, nem sequer podem aquecer o leite do seu filhinho. Se ao menos tivesses o teu antigo emprego de "chauffeur”

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  "Chauffeur", eu?... Sei que agora só queres ser artista, bem sei... Mas o resultado é esta desgraça em que nos encontramos... E que culpa tenho eu? Sempre falavas num filho. Ele aí está. Sustenta-o! Depois, pensando melhor, dava a sugestão mórbida e inescrupulosa que lhe ditava o pouco escrúpulo de marido e a total ausência de amor de pai. — Queres-te ver livre dele? Interna-o num orfanato! Ninguém saberá. - Isso nunca! Eu dele jamais me separarei. E era a luta de todos os dias, a questão eterna que surgia por qualquer motivo. Levantava-se ele. Preparava-se, cantarolando, comia o pouco que havia por ali e saia. Á porta a mulher gritava-lhe, num assomo de desespero. - Sem o dinheiro do aluguer não me apareças aqui, Jim! E ele saia sem a menor intenção de lhe dar confiança...   A lembrança maior que acudiu ao cérebro de Jim, naquele instante, para ver se conseguia dinheiro, não para o aluguer da casa, não, mas para a jogatina que o espera, é procurar Ashmore, dono de uma importante fabrica e na qual seu pai fora empregado e pedir-lhe dinheiro. Ashmore, entretanto, veda-lhe todas as vasas e não lhe dá o menor "cêntimo" Aconselha-o a trabalhar e nem sequer dá ouvidos as lamurias dele quando cita a infelicidade da esposa e a fome do filhinho... CONTINUA...    

 

«A Canção do Berço» foi portanto a primeira produção falada em Português que a Paramount estreou no nosso país. A expectativa era por isso enorme. As filmagens e sonorização decorreram nos estúdios da Paramount em Joinville, nos arredores de Paris. O filme «A Canção do Berço» surgiu do filme americano «Sarah and Son» que Ruth Chatterton interpretara magistralmente. Os artistas eram todos conhecidos do grande público: Corina Freire, Raul de Carvalho, Ester Leão, Alexandre de Azevedo, Alves da Costa e Guilherme Reis. O filme estreava a 22 de Dezembro de 1930 no Cinema Tivoli, alcançando um enorme êxito na altura.

 

 
I0011029-02PX=000000PY=000000 Em 1930 estreia-se em Portugal o filme «Sombras Brancas no Mar do Sul». Era o primeiro filme sonoro a estrear em Portugal e provocou verdadeiras avalanches de público. Ficava claro o seguinte: era urgente a produção de filmes sonoros entre nós. Mas, a falta de meios técnicos, falta de dinheiro e de um estúdio adaptado a essa realidade levantavam grandes dificuldades à concretização desse sonho. Ao fim de largos meses a ouvir-se apenas a voz de artistas estrangeiros em filmes sonoros, a notícia caiu que nem uma bomba no nosso meio artístico e não só: anunciava-se a vinda a Portugal do realizador brasileiro Alberto Cavalcanti, a fim de contratar artistas portugueses para o filme falado «A Canção do Berço». A Paramount dispunha-se a filmar simultâneas versões em idiomas diferentes dos seus filmes. Após criteriosa selecção levada a cabo por Cavalcanti, algumas semanas mais tarde partiam para Paris, os artistas portugueses: Ester Leão, Corina Freire, Raul Carvalho, Alexandre de Azevedo, António Sacramento, Alves da Costa e o pequeno Guilherme Reis." Depois deste filme, a Paramount faz outros.” – Anunciavam as revistas e jornais da época. Evidentemente que uma das razões que moveram a Paramount nessa iniciativa — era satisfazer o Brasil, que, como se sabe, teve sempre um culto decidido e franco pelo cinema americano —- razão essa porque a Paramount  teve no mercado brasileiro uma formidável rede distribuidora que lhe permitiria a sua actual e arrojada iniciativa. Mas isso não interessava nada, o que importava era que finalmente se ia ouvir cinema falado em português. (A actriz Ester Leão assinando o seu contrato com a Paramount perante o realizador Alberto Cavalcanti)
Al Jolson Jazz Singer Premiere O ano de 1927 ocupa, dentro do panorama movimentado e empolgante da história do cinema, uma posição não só das mais importantes como das de maior significado na sua trajectória para o futuro. Operava-se na América do Norte uma reviravolta espectaculosa, lançando os esmagadores alicerces de uma modalidade nova. O cinema sonoro nascia e instalava-se com um à-vontade e força surpreendentes. A 6 de Outubro desse ano surgia o primeiro filme sonoro: «O Cantor de Jazz». O sucesso foi imediato. E, daquele país, o fonocinema galgava, avassaladoramente, os continentes, conquistando por todos os países adeptos, ferrenhos, impondo-se e fixando-se como triunfador. Escassos meses depois, a Europa, por sua vez, apressadamente apetrechava-se e procurava adestrar-se convenientemente, por forma a corresponder à expectativa, ao interesse, ao entusiasmo suscitado pelos filmes sonoros vindos dos estúdios americanos e projectados em grande escala nos écrans de cinema do velho continente. Portugal não devia, também estar ausente ou ficar indiferente ao movimento que se observava nos grandes países. E não ficou, na verdade, como se pode apreciar, para o prestigio nosso e orgulho daqueles que, desde logo, acreditaram incondicionalmente no cinema sonoro. Evocar essa época é, sem dúvida, reviver um dos mais belos e agitados momentos da história do cinema português.
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