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Cinema Sonoro

 

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Para realizador dessa primeira produção, a Tobis Portuguesa escolhe o arquitecto Cottinelli Telmo, personalidade das mais inteligentes, dinâmicas e cultas da sua geração. A Companhia recém formada escolhia, assim, para director do seu primeiro filme uma individualidade completamente nova no meio cinematográfico, conjunto de factos que não deixava de apresentar um aspecto deveras curioso. Além de que era também da autoria do próprio realizador o argumento do filme.  A colaboração dada por técnicos estrangeiros à produção de «A Canção de Lisboa» foi, sem dúvida, avultada, circunstancia que nada tinha, aliás, de intempestiva ou, se se quiser, de desprimorosa para os elementos profissionais existentes, dado que pela primeira vez a técnica portuguesa ia tomar contacto com a complicada e difícil engrenagem que era a produção de um fonofilme. É assim que, além do Dr. Hans-Cristof Wohlrab, que já se encontrava entre nós quase desde a chegada dos camiões de tomada de som, surgem os nomes do operador francês Henri Barreyre; da especialista de montagem Tonka Taldy, mulher daquele técnico alemão, e que em França, na Alemanha e na Itália, onde deixara os estúdios da Pittaluga para trabalhar nos estúdios da Tobis Portuguesa, havia exercido a sua actividade; e do caracterizador russo Chakatouny. Esses técnicos tinham, no entanto, como colaboradores, dentro dos sectores próprios, elementos portugueses. Assim, no quadro da tomada de som achavam-se o engenheiro Paulo de Brito Aranha, como segundo-engenheiro de som, e Sousa Santos, como assistente. No sector da imagem o operador francês teve em César de Sá um colaborador precioso, que deveria, aliás, terminar o trabalho, pois H. Barreyre, por compromissos anteriores, regressou a França antes de o filme se encontrar concluído. Por sua vez, Octávio Bobone, que trocara fotografia de arte, onde era considerado um mestre, pelo cinema, faz em «A Canção de Lisboa», pode-se dizer, o seu baptismo cinematográfico. 3  
 

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Ano de 1933. Portugal conta já uma empresa produtora de filmes sonoros – a Tobis Portuguesa. As suas possibilidades técnicas apresentam-se com suficiente capacidade para dar início à respectiva actividade, pois desde há meses a Companhia está na posse da aparelhagem de registo de som, duma marca de grande prestígio. É certo que o estúdio, cuja construção foi iniciada no último mês do ano que passara, ainda está longe de poder albergar, dentro das suas paredes, uma equipa cinematográfica.  Mas esse facto não causa impedimento de maior à decisão de, tão rapidamente quanto possível, se dar começo à produção do primeiro filme de grande metragem da nova empresa. Aquela falta é, no entanto, rodeada pela decisão tomada de ser produzido um filme em que a acção decorra, na sua maior parte em exteriores. Tal facto, não impedirá, porém, que o filme venha a contar com um certo número de interiores. Essas passagens viriam a ser realizadas, mercê do material de iluminação que a Tobis já possuía – e que seria completamente construído em Portugal, nas oficinas da Electro Reclamo, Lda, sob a direcção do engenheiro José Carlos do Santos -, numa dependência da antiga Quinta das Conchas. E com esse intento, se dá início à produção de «A Canção de Lisboa», que ficaria a constituir não só o primeiro trabalho de folego da Tobis Portuguesa, como viria a apresentar o título honrosíssimo de ser o primeiro filme sonoro português inteiramente realizado em Portugal. Foi precisamente a 20 de Junho de 1933 que se deram as primeiras voltas de manivela. DiariodeLisboaN3818_0003_branca_t0
 

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Segundo esses planos, o estúdio compunha-se de três corpos: um compreendendo os edifícios para o material eléctrico, móveis, acessórios, etc…; outro, de dois pavimentos, agrupando a cabina de som, alojamento para figurantes, sala e cabine para projecção, laboratório de ensaio, etc…; o terceiro, constituído pelo estúdio propriamente dito, com a seguinte área: 25 metros de comprimento, por 20 metros de largura e 13 metros de altura. Nos começos de Março do ano seguinte verifica-se um acontecimento de alta importância – a chegada dos camiões de tomada de som, os quais apresentavam a particularidade especial de serem a primeira unidade dum novo modelo a sair da fábrica. Eram constituídos por duas viaturas: uma fornecedora de energia eléctrica, com as características especiais necessárias ao conveniente funcionamento da aparelhagem de tomada de som, e outra, propriamente o carro de registo de som, com capacidade de quatro microfones, compreendendo a cabina monitora do engenheiro de som e uma outra cabina onde se encontrava instalada a camara da captação do som. Com a chegada da nova aparelhagem a TOBIS Portuguesa – designação porque passou a ser conhecida a empresa – achava-se assim, em condições de dar início à produção de filmes.
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Folheto com a distribuição dos papéis no filme «A Severa»

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Costinha e Maria Sampaio os marqueses de Seide

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Dina Teresa vivendo o papel sofrido da Severa

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Dina Teresa e Maria Sampaio, as rivais pelo coração do Marialva

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O triste final de «A Severa»

Curiosidades: Pode-se dizer que o Cinema Português Sonoro começou com chave de ouro, o filme foi um enorme êxito de crítica e de público. Manteve-se em cartaz mais de 6 meses. O seu sucesso foi tão grande que o filme estreou-se no Brasil, Espanha e França com igual sucesso. Aliás é graças a esse sucesso financeiro que se inicia a construção de um estúdio de cinema adaptado para o sonoro. É o nascimento da Tobis Portuguesa.

13Dina Teresa em Capa da revista de cinema «Invicta-Cine»

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A actriz Dina Teresa e o actor e jornalista António Fagim como Severa e o Romão

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O popular actor Costinha como Marquês de Seide

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Os actores António Luís Lopes e Maria Sampaio como o Marialva e a Marquesa de Seide

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A Severa e o Marialva juntos

 Curiosidades: Filme baseado na obra de Júlio Dantas. Foi o primeiro filme sonoro em Portugal, embora a sonorização tivesse que ser feita nos estúdios da Tobis, em Épinay-sur-Seine na França. Custou 1800 contos e foi um enorme sucesso de bilheteira, estando 6 meses em exibição. O filme "A Severa" contava com um guarda-roupa sumptuoso e com cenas magistralmente filmadas por Leitão de Barros, como por exemplo as cenas filmadas durante a festa da Marquesa de Seide, nos jardins do Palácio Fronteira.
51 Um técnico francês de comprovada competência, A. P. Richard, foi convidado a visitar Portugal para, in loco e com a colaboração estreita do arquitecto Cottinelli Telmo, elaborar os projectos para a construção do almejado estúdio em terra portuguesa. Ao esboçar os planos de construção do estúdio português houve que tomar em linha de conta, segundo as próprias afirmações do especialista francês, os três seguintes aspectos: 1º a necessidade de tudo ser feito dentro da máxima economia; 2º dotar Portugal de um estúdio que pudesse acompanhar as evoluções da técnica e as exigências do cinema dentro dos anos mais próximos; 3º prever o facto de a produção portuguesa, não sendo de princípio numericamente grande, poder aumentar consideravelmente, de ano para ano, e vir a necessitar de mais vastas instalações para a sua expansão. Um problema, e de vulto, dadas as responsabilidades que a sua decisão poderia provocar, surge à Sociedade – a escolha da aparelhagem de captação de som com que o estúdio viria a ser equipado. As primeiras consultas foram feitas à representante na Europa da conhecida marca R.C.A. , tendo até um delegado dessa entidade, vindo propositadamente vindo a Portugal estudar o assunto. Contudo, a encomenda do equipamento de som acabou por ser entregue ao grande potentado europeu que era já, ao seu tempo, a Klangfilm Tobis, a qual apetrechava então, estúdios na Alemanha, Áustria, Suécia, França, Inglaterra, Itália e Hungria. Ainda mais, o trust Tobis associava-se à empresa Portuguesa, que passaria a denominar-se, por isso mesmo, Companhia Portuguesa de Filmes Sonoros Tobis Klangfilm. A 19 de Dezembro de 1932 o construtor Diamantino Tojal dava início na quinta das Conchas, à edificação do estúdio, cujos planos pertenciam, como dissemos, a Cottinelli Telmo, sob parecer técnico de A. P. Richard, os quais viriam a ser, posteriormente revistos pela Klangfilm Tobis, de Berlim.  
15 Os motivos que haviam levado á formação da empresa são esclarecidos num comunicado emanado daquela própria entidade. Fundamentavam-se no reconhecimento da importância social da cinematografia sonora como meio de educação e cultura, como instrumento de informação, documentação, propaganda e publicidade. E acrescentava-se: «Movemo-nos, muito mais de que quaisquer considerações de carácter industrial ou comercial, um pensamento eminentemente patriótico: o de tornar possível a criação de uma arte nacional que, em muitos aspectos e por muitos títulos, pode e deve ter uma vasta influência na vida e no progresso na nação». Dentro co conjunto de corpos gerentes da Companhia, o Conselho da Administração ficou constituído pelos Srs. Drs. António da Fonseca, como administrador delegado, Artur Campos Figueira, Caetano Maria Beirão da Veiga, Hildérico Cardoso, Inácio Teixeira, Ricardo Jorge e João Pereira da Rosa. Por sua vez, o Conselho de Produção apresentava-se com a seguinte composição: António Ferro, Ferreira de Castro, João Ortigão Ramos, J. Castelo Lopes, Leitão de Barros, Norberto Lopes, Dr. António da Fonseca e Silva Pereira. Imediatamente após a constituição da Companhia, deu-se início ao estabelecimento e ao estudo pormenorizado dos planos para a construção do estúdio, que viria a ser edificado na Quinta das Conchas, que acabava de ser adquirida por aquela empresa. 52
33 De facto, em Março de 1932, três meses depois, portanto, de ter sido apresentado o relatório da comissão nomeada para estudar as condições da industrialização da produção cinematográfica portuguesa, e através de uma campanha sabiamente lançada, nos grandes jornais como nas páginas da imprensa especializada, era trazida ao conhecimento do público a constituição de uma empresa – a Sociedade de Filmes Sonoros Portugueses, sociedade anónima, com o capital inicial de 1.000 contos, dividido em 20.000 acções de 50 escudos. Procurando interessar a massa enorme de público frequentador do espectáculo cinematográfico, era este convidado, muito especialmente a dar a sua colaboração à iniciativa pela subscrição de qualquer número de acções, para que o seu pagamento fora ainda facilitado, desdobrando-o em cinco prestações iguais, a pagar em outros tantos meses. A par disso, era dada a informação de que ninguém poderia desempenhar cargos ou funções, ou qualquer serviço remunerado, sem ser possuidor, pelo menos, de uma acção da Sociedade, como eram indicadas também outras regalias, tais como visitas ao estúdio durante as filmagens, o direito de assistir à apresentação prévia dos filmes produzidos nas suas instalações, etc. Em começos de Julho de 1932 acha-se definitivamente constituída a Companhia Portuguesa de Filmes Sonoros. 18
   

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A correcta fotografia das cenas de interior e as lindíssimas imagens escolhidas no exterior acreditaram António Salazar Dinis como um dos nossos maiores operadores. Por sua vez, Frederico de Freitas dá ao filme valiosa colaboração escrevendo uma inspirada partitura, onde ressaltavam alguns números que durante muito tempo andaram na boca e nos ouvidos do País inteiro. A existência de um estúdio permitindo a produção de filmes em Portugal constituía, no limiar da nova era cinematográfica, como vimos já, o problema número um. Esse facto afigurava-se, para todos aqueles que pelo futuro do cinema português, pelo estabelecimento duma indústria nacional de fonofilmes, vinham incansavelmente batendo-se, o elemento essencial para se poder criar, fixar e impor, enfim, uma cinematografia portuguesa. O exemplo de «A Severa», com todo o cortejo de dificuldades de ordem material, técnica e financeira encontradas quando dos trabalhos realizados em terra alheia, mais fazia arraigar ainda, no espírito daquela escassa dúzia de pessoas que por essas coisas se interessavam e lutavam já – despois de as terem estudado cuidadosamente, em todas as suas particularidades -, a necessidade da existência entre nós dos meios técnicos indispensáveis à complexa e, nesses primeiros tempos ainda mais, contingente e ingrata tarefa de produção de filmes. Deveria ser precisamente Leitão de Barros, o homem que havia dado ao cinema nacional nos últimos tempos do «mudo» uma das suas obras mais significativas e que, antes de alguém mais entre nós, ousara, podemos assim dizer, realizar o primeiro filme sonoro português, a personalidade em volta de quem deveria surgir a iniciativa chave da indústria de produção de fonofilmes em Portugal.

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