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Cinema Sonoro

99 Argumento: Esta é a história de Vasco Leitão, estudante de medicina que vive em Lisboa da mesada que regularmente lhe enviam as suas tias de Trás-os-Montes, D. Efigénia e D. Perpétua, senhoras que nunca vieram à capital. As tias, no seu recanto provinciano, julgam o seu sobrinho um aluno cumpridor e estudioso, ilusão que ele alimenta, para que elas o continuem a financiar. Mas Vasco, em vez de estudar prefere levar uma vida boémia, preferindo os arraiais e as raparigas bonitas, em particular Alice, filha de um alfaiate, que é perdidamente apaixonada por ele. Estes amores não são muito do agrado do pai da costureira, o respeitável alfaiate Caetano, que sabe que Vasco está crivado de dívidas e até vai ser despejado do quarto independente, onde tem a sua residência. Como todas as fatalidades, o dia do exame final chega e Vasco é vergonhosamente reprovado em Medicina, e como uma desgraça nunca vem só, recebe nesse mesmo dia uma carta de suas crédulas tias, que julgando-o já Doutor, lhe anunciam uma visita à capital. A situação de Vasco é aflitiva. Como vai ele ocultar que ficou reprovado no exame? Como vai ele justificar as despesas que tem causado às velhotas? É assim que tudo se complica. 144
18 O êxito deste filme deve-se a vários factores, em primeiro lugar ao argumento que embora simples é de uma frescura e comicidade sem limites, é de salientar que o argumento é do próprio realizador, Cottinelli Telmo. Em segundo lugar, deve-se á ajuda dos Jornais e Revistas da época que fizeram uma publicidade sem precedentes. Em terceiro lugar, o êxito deve-se principalmente pelo elenco escolhido. Naqueles anos, o Teatro de Revista vivia anos dourados, havia um grupo de artistas talentosos e grandemente amados pelo público. Cottinelli Telmo decide então escolher para intérpretes do seu filme, actores já consagrados no teatro de revista. Por isso pode-se dizer que na base do enorme êxito deste filme estão três cómicos teatrais dos mais populares: Vasco Santana, Beatriz Costa e António Silva, três personalidades bem definidas no palco, que vão demonstrar a sua natural aptidão para a nova arte, ou seja, a sua capacidade forte para estabelecerem com o público do cinema uma forte e rápida comunicação, como conseguiram, desde há muito, com o público do teatro. 133 E que dizer dos papeis secundários? Basta olhar para esses papéis, e encontramos actores que eram do melhor que havia nos palcos de comédia, com destaque para as grandes actrizes "características" Teresa Gomes e Sofia Santos, fazendo duas tias da província, e os tipos criados por Silvestre Alegrim e Manuel Santos Carvalho. Um dos autores teatrais mais conceituados e populares, José Galhardo, encarregou-se dos diálogos, repletos de trocadilhos, tal qual como aqueles com que o publico se habituara a rir no teatro, e também dos versos das cantigas, que seriam todas um sucesso, com música dos dois compositores mais conceituados da altura, Raul Portela e Raul Ferrão. E, no entanto, apesar do peso do teatro, este filme invulgar, tinha uma enorme frescura cinematográfica, dando a sensação de uma quase constante improvisação, tal o seu à vontade, é por isso que ainda hoje chega ao público. 32 Intérpretes: Vasco Santana - Vasco Leitão; Beatriz Costa – Alice; António Silva – Caetano; Sofia Santos - Tia Efigénia Rocha; Teresa Gomes - Tia Perpétua Rocha; Manoel de Oliveira – Carlos; Alfredo Silva – Sapateiro; Eduardo Fernandes – Quicas; Ana Maria - Maria da Graça, namorada de Carlos; Manuel Santos Carvalho - Alexandrino, Dono do Retiro; Silvestre Alegrim - João, Empregado do Retiro e ainda: Álvaro de Almeida; Carlos Deus; José Victor; Francisco Santos; Guimarães Frazão; Maria Albertina...
A par da valiosa ficha técnica que se acaba de indicar, «A Canção de Lisboa» teve no seu elenco um núcleo excelente de comediantes, fornecido prodigamente pelo teatro, conjuntamente com um numeroso grupo de intérpretes, muitos dos quais pela primeira vez abordavam o cinema. Entre os primeiros contava-se Beatriz Costa, a grande vedeta do teatro ligeiro, que acabava de fazer a sua estreia no fonocinema interpretando em Paris, para a Paramount, a versão portuguesa do filme «A Minha Noite de Núpcias», e que em «A Canção de Lisboa» viria a ter uma das suas mais felizes interpretações cinematográficas; Vasco Santana, com o simpático à-vontade e a graça comunicativa que todos lhe conhecemos; António Silva, que teria, na rábula do alfaiate uma criação de grande marca; Teresa Gomes e Manuel dos Santos Carvalho, além de Silvestre Alegrim, Sofia Santos, Júlia da Assunção, Alfredo Silva, José Victor, Henrique Alves, Artur Rodrigues, Francisco Costa e a conhecida cantadeira de fados, Maria Albertina. 19 No sector de gente nova estavam Manoel de Oliveira, que trocaria momentaneamente a sua excelente actividade de cineasta pela de actor, Ana Maria, Eduardo Fernandes e o grupo gentil e moço das seis premiadas no concurso aberto pelo Diário de Lisboa, e que interpretava, com frescura, o friso das costureiras, camaradas de Beatriz Costa. Eram elas: Elvira Coutinho, Corália Escobar, Ivone Fernandes, Fernanda Campos, Zizi Cosme e Maria da Luz. 155
 

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O pintor Carlos Botelho assumiria as funções de primeiro-assistente de realização, cabendo ao Dr. José Galhardo a autoria dos diálogos e dos versos. Dois compositores de méritos já bem firmados, Raul Portela e Raul Ferrão, assinavam a música. René Bohet é o supervisor musical do filme, mais tarde substituído por Jaime Silva Filho, a quem se ficou devendo a orquestração do filme. João Ortigão Ramos desempenha, por sua vez, com tacto e eficiência de assinalar, as ingratas funções de director de produção, acrescidas das de Delegado do Conselho de Administração da empresa produtora. 77
 

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Para realizador dessa primeira produção, a Tobis Portuguesa escolhe o arquitecto Cottinelli Telmo, personalidade das mais inteligentes, dinâmicas e cultas da sua geração. A Companhia recém formada escolhia, assim, para director do seu primeiro filme uma individualidade completamente nova no meio cinematográfico, conjunto de factos que não deixava de apresentar um aspecto deveras curioso. Além de que era também da autoria do próprio realizador o argumento do filme.  A colaboração dada por técnicos estrangeiros à produção de «A Canção de Lisboa» foi, sem dúvida, avultada, circunstancia que nada tinha, aliás, de intempestiva ou, se se quiser, de desprimorosa para os elementos profissionais existentes, dado que pela primeira vez a técnica portuguesa ia tomar contacto com a complicada e difícil engrenagem que era a produção de um fonofilme. É assim que, além do Dr. Hans-Cristof Wohlrab, que já se encontrava entre nós quase desde a chegada dos camiões de tomada de som, surgem os nomes do operador francês Henri Barreyre; da especialista de montagem Tonka Taldy, mulher daquele técnico alemão, e que em França, na Alemanha e na Itália, onde deixara os estúdios da Pittaluga para trabalhar nos estúdios da Tobis Portuguesa, havia exercido a sua actividade; e do caracterizador russo Chakatouny. Esses técnicos tinham, no entanto, como colaboradores, dentro dos sectores próprios, elementos portugueses. Assim, no quadro da tomada de som achavam-se o engenheiro Paulo de Brito Aranha, como segundo-engenheiro de som, e Sousa Santos, como assistente. No sector da imagem o operador francês teve em César de Sá um colaborador precioso, que deveria, aliás, terminar o trabalho, pois H. Barreyre, por compromissos anteriores, regressou a França antes de o filme se encontrar concluído. Por sua vez, Octávio Bobone, que trocara fotografia de arte, onde era considerado um mestre, pelo cinema, faz em «A Canção de Lisboa», pode-se dizer, o seu baptismo cinematográfico. 3  
 

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Ano de 1933. Portugal conta já uma empresa produtora de filmes sonoros – a Tobis Portuguesa. As suas possibilidades técnicas apresentam-se com suficiente capacidade para dar início à respectiva actividade, pois desde há meses a Companhia está na posse da aparelhagem de registo de som, duma marca de grande prestígio. É certo que o estúdio, cuja construção foi iniciada no último mês do ano que passara, ainda está longe de poder albergar, dentro das suas paredes, uma equipa cinematográfica.  Mas esse facto não causa impedimento de maior à decisão de, tão rapidamente quanto possível, se dar começo à produção do primeiro filme de grande metragem da nova empresa. Aquela falta é, no entanto, rodeada pela decisão tomada de ser produzido um filme em que a acção decorra, na sua maior parte em exteriores. Tal facto, não impedirá, porém, que o filme venha a contar com um certo número de interiores. Essas passagens viriam a ser realizadas, mercê do material de iluminação que a Tobis já possuía – e que seria completamente construído em Portugal, nas oficinas da Electro Reclamo, Lda, sob a direcção do engenheiro José Carlos do Santos -, numa dependência da antiga Quinta das Conchas. E com esse intento, se dá início à produção de «A Canção de Lisboa», que ficaria a constituir não só o primeiro trabalho de folego da Tobis Portuguesa, como viria a apresentar o título honrosíssimo de ser o primeiro filme sonoro português inteiramente realizado em Portugal. Foi precisamente a 20 de Junho de 1933 que se deram as primeiras voltas de manivela. DiariodeLisboaN3818_0003_branca_t0
 

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Segundo esses planos, o estúdio compunha-se de três corpos: um compreendendo os edifícios para o material eléctrico, móveis, acessórios, etc…; outro, de dois pavimentos, agrupando a cabina de som, alojamento para figurantes, sala e cabine para projecção, laboratório de ensaio, etc…; o terceiro, constituído pelo estúdio propriamente dito, com a seguinte área: 25 metros de comprimento, por 20 metros de largura e 13 metros de altura. Nos começos de Março do ano seguinte verifica-se um acontecimento de alta importância – a chegada dos camiões de tomada de som, os quais apresentavam a particularidade especial de serem a primeira unidade dum novo modelo a sair da fábrica. Eram constituídos por duas viaturas: uma fornecedora de energia eléctrica, com as características especiais necessárias ao conveniente funcionamento da aparelhagem de tomada de som, e outra, propriamente o carro de registo de som, com capacidade de quatro microfones, compreendendo a cabina monitora do engenheiro de som e uma outra cabina onde se encontrava instalada a camara da captação do som. Com a chegada da nova aparelhagem a TOBIS Portuguesa – designação porque passou a ser conhecida a empresa – achava-se assim, em condições de dar início à produção de filmes.
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Folheto com a distribuição dos papéis no filme «A Severa»

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Costinha e Maria Sampaio os marqueses de Seide

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Dina Teresa vivendo o papel sofrido da Severa

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Dina Teresa e Maria Sampaio, as rivais pelo coração do Marialva

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O triste final de «A Severa»

Curiosidades: Pode-se dizer que o Cinema Português Sonoro começou com chave de ouro, o filme foi um enorme êxito de crítica e de público. Manteve-se em cartaz mais de 6 meses. O seu sucesso foi tão grande que o filme estreou-se no Brasil, Espanha e França com igual sucesso. Aliás é graças a esse sucesso financeiro que se inicia a construção de um estúdio de cinema adaptado para o sonoro. É o nascimento da Tobis Portuguesa.

13Dina Teresa em Capa da revista de cinema «Invicta-Cine»

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A actriz Dina Teresa e o actor e jornalista António Fagim como Severa e o Romão

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O popular actor Costinha como Marquês de Seide

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Os actores António Luís Lopes e Maria Sampaio como o Marialva e a Marquesa de Seide

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A Severa e o Marialva juntos

 Curiosidades: Filme baseado na obra de Júlio Dantas. Foi o primeiro filme sonoro em Portugal, embora a sonorização tivesse que ser feita nos estúdios da Tobis, em Épinay-sur-Seine na França. Custou 1800 contos e foi um enorme sucesso de bilheteira, estando 6 meses em exibição. O filme "A Severa" contava com um guarda-roupa sumptuoso e com cenas magistralmente filmadas por Leitão de Barros, como por exemplo as cenas filmadas durante a festa da Marquesa de Seide, nos jardins do Palácio Fronteira.
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