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Cinema mudo

42 Homem modesto mas pertinaz, técnico culto e talentoso, Manuel Luís Vieira dirige após «A calúnia», o cine-drama rústico «O Fauno das Montanhas», onde associa, duma forma harmoniosa, a ilustração de costumes e das magníficas paisagens madeirenses, ao enredo de aventuras com surpreendentes implicações fantásticas. Um naturalista, Mr. Garton, acha-se hospedado num dos melhores hotéis do Funchal, a passar parte do Inverno com a filha, Jenny, moça romântica e de pródiga fantasia. Garton visita um sábio local, que lhe revela as espécies científicas da ilha – entre elas o pássaro bis-bis, cujo habitat mostrou interesse em conhecer. Informado de que, para tal, a melhor região é no interior, o Rabaçal, para lá se dirige com a filha, de barco até ao porto da Calheta (pretexto para revelar algumas belezas naturais: Câmara dos Lobos, Ribeira Brava, Ponte da Madalena), onde utilizam o meio clássico de transporte em rede… acabando Jenny por preferir viajar a cavalo. À impressionante tela madeirense, associa-se assim, o estigma da expedição, ou a aventura para o desconhecido. 43

Com um bom argumento, conseguiu Manuel Luís Vieira dar-nos uma interessante pelicula, cheia de boas fotografias da pérola do Atlântico. O principal papel feminino foi entregue à irmã do realizador, Ermelinda Vieira e o masculino a Arnaldo Coimbra, que teve uma feliz interpretação, bem como Jorge Gordon, outro intérprete do «Fauno das Montanhas».

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Este seria o último filme da Empresa Cinegráfica Atlântida e de Manuel Luís Vieira.

 
40 O ano de 1925 passa em claro para o cinema nacional. Mesmo o filme «O Diabo em Lisboa», com realização de Rino Lupo, não chegou a ser concluída. Em princípios de 1926, uma notícia surge, logo comentada com interesse. No Funchal, Manuel Luís Vieira, que acção tão preponderante viria a ter no cinema nacional, funda a «Empresa Cinegráfica Atlântida», e brevemente seria apresentada a primeira película, assinada por aquela empresa produtora e interpretada, exclusivamente, por amadores funchalenses. É assim que surge «A Calúnia», filme romântico, de forte cunho dramático, bem elaborada ao nível da sequência e com excelente tratamento técnico artístico. Um primeiro capítulo, «O respeito», leva-nos aos arredores do Funchal, onde numa alegre casa vive Margarida com o pai, Justino, rico e bondoso proprietário. Noutro extremo, Gaspar chega ao palacete pela manhã, de passar a noite em orgias sucessivas, até que a dura realidade lhe bate à porta: está falido, após dissipar em menos de dois anos a fortuna da família. A partir daí começa toda a acção do filme. O filme estreia-se no Funchal, no Teatro Circo a 22 de Fevereiro de 1926 e em Lisboa, no cinema Éden a 11 de maio do mesmo ano. A crítica elogia as interpretações, pela sua naturalidade e veemência, apesar de algumas quebras. Incorrecções de pormenor são compensadas pelo trabalho em geral, principalmente fotográfico (óptimas trucagens e sobreposições, perfeitos movimentos de câmara). 41
38 O outro filme da produção de 1924 é o que teve por título «A Tormenta». George Pallu foi o realizador. Um facto é de apontar, ele que dera inicia à actividade da Invicta Film ao realizar «Frei Bonifácio» em 1918, é o mesmo George Pallu que encerra o ciclo de produção da empresa da Quinta da Prelada ao dirigir «A Tormenta». O argumento que serviu de base ao filme, foi escrito expressamente por Paulo Osório, então adido de Imprensa junto da embaixada de Portugal em Paris e correspondente do «Diário de Noticias», trabalho pelo qual lhe foi pago, como direitos de autor, a soma de 2000 escudos. «A Tormenta» é um melodrama, com situações algo convencionais que empobreciam o valor do filme. Do ponto de vista técnico, isto é acção do realizador e trabalho do operador, pois a acção estava localizada na sua maior parte em interiores. O desempenho acusava um excelente apuro. Com efeito, havia desde logo que nele destacar a actuação de Maria Clementina, actriz de teatro de méritos comprovados através de uma excelente carreira no palco, figura de prestígio no nosso meio teatral, e para a presença da qual, nesse filme, a Invicta pagara a importância de 2.000 escudos, cachet fora da bitola habitual. São também dignas de acentuada referencia as interpretações de António Pinheiro, José Soveral, que se destacara já em «O Fado» de Maurice Mariaud, e «Os Lobos» de Rino Lupo, Mário Pedro e Alírio Laires. «A Tormenta» estreia-se em Lisboa, no Cinema Condes a 12 de Junho de 1925. Com este filme morria assim a «Invicta Film». 39
37 «Tragédia de Amor» gira, pois, em torno de uma figura de mulher. Sobre os ombros da intérprete dessa personagem recaía uma séria responsabilidade; era ela o fulcro de toda a acção, figura castigada pelo destino, à mercê de muitos perigos. Realmente, uma tal personagem, centro de todo o drama, por isso mesmo difícil, exigia da actriz a quem viesse a caber a respectiva interpretação verdadeiras qualidades de artista – sensibilidade, compreensão, inteligência não vulgares. De facto, a protagonista, Alda de Azevedo, quase uma estreante, houvesse nessa sua actuação com assinalável brilho pela intuição, a segurança, a contenção, o acerto, enfim, como compôs e viveu essa figura. Na distribuição do filme incluíam-se: o próprio realizador, António Pinheiro, no personagem do pai da protagonista, um ébrio, quase um farrapo, curta actuação a que António Pinheiro dava justa e relevante expressão; Emília de Oliveira, num papel em que justificava os seus reconhecidos méritos de actriz, a qual iniciara na Invicta uma carreira de actriz de cinema que se prolongaria através de numerosos filmes do período sonoro; Bettencourt Ataíde, no principal personagem masculino; Adelina Fernandes, Júlio Cunha e Duarte Silva.
36 O ano de 1924 presenteia-nos com três películas bastante diversas entre si. «As Aventuras de Agapito» de Roger Lion, teve produção da Pátria Film, com argumento de Maurice Mariaud, tal como o «Fado» de 1923 que este realizou e ao qual serviu de complemento, na estreia em Lisboa, no Salão Central, a 7 de Abril de 1924. O filme mostrou ser uma comédia sem qualquer interesse, aliás foi a última produção da Pátria Film. Foi protagonista o acrobata Nestor Lopes, que tinha feito a sua estreia cinematográfica em «Sereia de Pedra». «Tragédia de Amor», produção da Invicta Film, teve como realizador e argumentista o actor António Pinheiro. A principal figura desta película, foi entregue a uma descoberta casual e discípula de António Pinheiro, Alda de Azevedo, pseudónimo artístico de Beatriz Barbosa. Noutros papéis apareciam Adelina Fernandes, Emília de Oliveira entre outros. É um drama de recorte realista, com um certo fundo social, desenrolando-se em ambientes duma grande cidade, e tendo como acção a luta tenaz e difícil duma mulher pelo seu direito de viver, e a quem as circunstancias, mau grado todo esforço evidenciado, conduzem a uma existência à margem da sociedade e a qual quase soçobra ao peso de um destino injusto.
osuicidadaboca_01 Em 1923, Ernesto de Albuquerque realizou para a «Enigma Films» o «Suicida da Boca do Inferno». Interpretaram os diversos papeis desta pelicula os artistas Lina de Albuquerque, Álvaro Baptista, José Clímaco, Amélia Perry, Maria Sampaio, entre outros. Numa história de amor, ódio e vingança, que põe em presença um sem número de personagens, em volta de algumas das quais se tecem e desencadeiam situações duma intriga movimentada, decorrendo nos mais diversos ambientes. A rodagem de interiores teve decoração de José Pacheco, com exteriores na região de Cascais. A convite de Castello Lopes, «O Suicida da Boca do Inferno» foi apresentada no cinema Condes, em 9 de Maio de 1923. Nesse ano estreou-se , no Salão Foz e Chiado Terrasse, a 11 de Julho.
 

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Ainda em 1923, o francês Maurice Mariaud dirigiu, para a «Pátria Film», «O Fado», o que para muita gente constituiu escândalo, por um estrangeiro ter a ousadia de tratar um assunto tipicamente nacional. O argumento também lhe pertence, sugestionado na peça de Bento Mântua, e no célebre quadro de José Malhoa, além da livre inspiração em «A canção das Perdidas», poema de Augusto Gil.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA essência da fita é o próprio fado, em história de tresvario e má-sina – sobre um honesto trabalhador de Alfama, que vive feliz com a família, até ser seduzido por uma mulher perdida, à noite, num café de camareiras… Desenvolvida em clima de espiral, tensa e sufocante, a conflitualidade expõe-se pela reconstituição de locais castiços, tipos humanos e, mais relevante, sensualismo doentio. O bom trabalho técnico, em particular a fotografia e marcação dramática, culmina, a par do sóbrio leque de representações, este nosso clássico populista. Foram protagonistas Eduardo Brazão (avô), Ema de Oliveira (Ana), Raul de Carvalho (Tónio), José Soveral (João Ferreiro) e Sarah Cunha (sua mulher), sendo director artístico Henrique Alegria. A produção ultrapassou os sessenta e sete contos, com rodagem na Quinta das Conchas, no Lumiar. Teve estreia no Porto a 17 de Março de 1923, no Cinema Olimpia. Em Lisboa, «O Fado» estreou-se no Salão Central a 9 de Junho de 1923.

 

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Após a «Sereia de Pedra», a Fortuna Films produziu, ainda em 1923, «Os Olhos da Alma», baseado numa outra obra de Virgínia de Castro e Almeida, novamente com a realização de Roger Lion. Em causa, a exploração de um tema definido pela própria escritora: «O homem, tornado presa das suas paixões, decide refugiar-se na floresta, densa, donde a cada passo sai coberto de sangue». A rodagem decorreu na Nazaré, em Alcobaça, Batalha e Lisboa, com um orçamento de seiscentos contos, sendo protagonistas: Gil Clary (Isolda), Maria Emília Castelo Branco (Rosária), Eduardo Brazão (Dionísio, o moleiro), Charles Maxudian (Diogo Sousa), João Lopes (Rodrigo de Meneses) entre outros. Numa comunidade da orla costeira sobressaem dois clãs – um pequeno mas influente, formado pelos proprietários dos barcos, que a família Sousa Lidera; outro maior, mas de baixos recursos, os pescadores cujas traineiras saem incansavelmente para o mar. Ambicioso e sem escrúpulos, Diogo Sousa provoca uma revolta, refugiando-se em casa do amigo Rodrigo de Meneses. Atraído pela sua filha Isolda, Diogo usa um terrível segredo – que Rodrigo lhe revelou, pouco antes de morrer – para forçá-la ao casamento. Ora, os acontecimentos precipitam-se, pondo Diogo em fuga. Apaixonada por um primo, Álvaro, Isolda viverá, porém, sempre atormentada pela ameaça de Diogo. O filme teve distribuição da Companhia Cinematográfica de Portugal, «Os Olhos da Alma», foi apresentado em Lisboa, no Tivoli, a 30 de Março de 1925, e no Porto a 13 de Maio do mesmo ano.

 
 

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A exemplar fotografia de Artur Costa de Macedo, pujante e luminosa, contribui decisivamente para um apreço excepcional – na mestria das representações, no realismo documental e na coerência etnográfica. Entre os intérpretes, destacam-se Branca de Oliveira (Luzia), José Soveral (Ruivo), Sarah Cunha (Águeda) e Joaquim Avelar (Gardunho).  O filme estreou-se a 7 de maio de 1923 no Jardim Passos Manuel no Porto. O filme teve enorme sucesso em Espanha, Itália, França, Roménia e Brasil.

    (Cinema Português – Fitas sem falas 2) por José de Matos-Cruz
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