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Adelina Abranches

11 Margarida Adelina Abranches, de seu nome completo, nasceu em Lisboa a 15 de agosto de 1866. Foi criada entre oito irmãos, ao encargo de sua mãe, que, apesar de muito se esforçar, não conseguia suprir todas as necessidades financeiras da família. Foram estas dificuldades que levaram os seus irmãos mais velhos a ir trabalhar bem cedo e a sua mãe a aceitar a proposta de um vizinho – porteiro da caixa do D. Maria – que recrutava crianças para figurantes de um espetáculo no Teatro Nacional, pagando “seis vinténs por cabeça”. Estreia-se como figurante num espetáculo do Teatro Nacional D. Maria II, a 10 de janeiro de 1872: «Os meninos grandes», tinha então cinco anos de idade. Trabalhou, depois, numa série de teatros da capital, por vezes em simultâneo, representando frequentemente papéis masculinos infantis devido a um certo jeito arrapazado. Aos doze anos, Adelina já tinha trabalhado na grande maioria dos teatros da capital, como o Teatro Nacional D. Maria II, o Teatro do Príncipe Real, o Variedades, o Teatro do Rato, o Teatro D. Fernando e o Teatro da Rua dos Condes, mas aqui foi despedida por gostar muito de improvisar em palco. Apesar de sua escolaridade reduzida, devido à sua condição social familiar e à intensa atividade teatral precoce, frequentou, contudo, o Conservatório entre 1876 e 1878. 12 Desde cedo, fez várias digressões por Portugal – continental e arquipélagos – e pelo Brasil. Firmou a sua carreira no Teatro do Príncipe Real, onde trabalhou durante vários anos, tendo posteriormente integrado a Companhia Rosas & Brazão (1877), o elenco do Teatro Livre (1904) e do Teatro da Natureza (1911), bem como a Empresa Rey Colaço-Robles Monteiro. Foi empresária teatral da Companhia Adelina Abranches e da Companhia Adelina – Aura Abranches, esta última em sociedade com a sua filha. Contraiu matrimónio com o empresário Luís Ruas, com quem teve dois filhos, ambos atores – Aura Abranches e Alfredo Ruas – mas divorciou-se em 1902. Entre os seus maiores êxitos destacam-se: Maria da Fonte – onde representou o “Fagulha” – e O tipógrafo (mais conhecido como O gaiato de Lisboa) em 1882 no Teatro do Rato; a Rosa enjeitada, de D. João da Câmara, em 1901, no Teatro do Príncipe Real; em 1902 participa na revista de sucesso À procura do badal; ainda nesse ano, no Teatro D. Amélia integra o elenco de As proezas de Richelieu, de Bayard e Dumanoir, e Uma anedota. No Teatro D. Amélia, Adelina brilhou em Ressurreição, espetáculo baseado no romance de Tolstoi, em 1903, interpretação que lhe valeu elogios de Joaquim Madureira, bem como em A cruz da esmola, de Eduardo Schwalbach, levada à cena no mesmo ano, e em O avô, de Pérez Galdós, em 1905. Nesse mesmo ano foi convidada a integrar a segunda temporada do Teatro Livre, em papéis principais, como em Missa nova de Bento de Faria. 13 Após esta temporada, Adelina entrou para a sociedade artística do Teatro Nacional D. Maria II, onde se manteve até 1910 com êxitos como Afonso de Albuquerque, de Lopes de Mendonça (1906). Esteve, também, envolvida no projeto Teatro da Natureza, que, por motivos financeiros, foi extinto no mesmo ano da sua criação, em 1911. Durante as décadas de 1910 e 1920 Adelina Abranches envolveu-se, como empresária e atriz, em vários projetos levados a cabo em conjunto com sua filha Aura Abranches e Alexandre de Azevedo, fundando as companhias Adelina Abranches e Adelina – Aura Abranches. Na temporada de 1911-1912, Adelina regressou ao Teatro D. Amélia, entretanto nomeado Teatro República, o que entristeceu bastante a atriz, que era uma monárquica convicta. Aí representou Gil Vicente, pela primeira vez na sua carreira, destacando-se como “Brísida Vaz” no Auto da barca do Inferno. No fim da temporada do D. Amélia, Adelina, juntamente com a sua filha Aura e com Alexandre de Azevedo, rumou ao Teatro Sá da Bandeira, no Porto, para apresentar uma série de espetáculos de grand-guignol o que a levou, posteriormente, ao Brasil, numa digressão de um ano, entre 1913 e 1914. Foram, de resto, muitas as digressões que fez, entre 1886 e 1934, não só por Portugal, mas também pelo Brasil. Após o seu regresso a Portugal, em 1914, passou pelo Teatro Politeama, pelo Avenida e pelo Apolo (antigo Príncipe Real), antes de regressar ao Teatro Nacional para representar, entre outras peças, A mãe, de Russiñol, que constituiu um dos maiores sucessos da sua carreira. O êxito que se seguiu foi a sua criação da protagonista de O lodo, de Alfredo Cortez, no Teatro Politeama, em 1923. De nota é, também, a sua colaboração com a companhia organizada por Alves da Cunha, na temporada de 1926-27, para o Teatro Nacional, em que sob a direção de Araújo Pereira representou O Gebo e a sombra de Raúl Brandão. Trabalhou ainda com a companhia Rey Colaço-Robles Monteiro (1932-33, 1935-37 e 1940-41), concessionária do Teatro Nacional. Participou, em 1930, nos elencos dos filmes «Maria do Mar» e «Lisboa, crónica anedótica» de Leitão de Barros. E em 1938 despede-se das telas de cinema com o filme «A Rosa do Adro» de Chianca de Garcia. Morreu em Lisboa a 22 de Novembro de 1945. 14
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