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Observações sobre «Maria do Mar» - II

 

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  A utilização do picado realça nestes, uma estatura de heroísmo. Leitão de Barros soube surpreender o imprevisto e, apesar da ingenuidade de algumas cenas (…) pôde dar largas à sua definição visual do corpo humano, com audácia e uma sensualidade raramente atingida em filmes nacionais, para o que muito concorreu a capacidade plástica do cineasta-pintor. A cena em que Falacha toca os seios da filha, retendo-a no seu colo e apercebendo-se de que já é uma mulher, envolve também um misto de candura e perversidade que, reflectindo-se na sua troca de olhares, desafia todas as interjeições morais. A iluminação composta, sempre e em particular para esta cena, é forte e sublinhadora, unidireccional de acordo com a rusticidade do cenário – com intensidade equivalente à que fende o rosto enturvecido e patético de Falacha, no horror após a perda dos companheiros. O seu sacrifício de honra volta a ser, sem dúvida, um dos momentos de maior dimensão trágica do cinema português, reflectindo no silêncio natural do filme pela descoberta dos corpos jazentes da mulher e da filha, letárgicas sobre a areia. A fatalidade projecta toda essa progressão dramática quase a um paroxismo, cujas referências se podem traçar na religiosidade mística e nos códigos de honra entre pescadores. Vem a propósito realçar que, na Nazaré, pontifica o vestuário escuro, em contraste com os trajes claros dos poveiros (em Ala-Arriba!). (…) Leitão de Barros busca soluções gráficas (distintos tipos de desenho para Perigo! Naufrágio! Não entrem. Não entrem!) a fim de acentuar a gravidade do perigo iminente. E o carácter sintético das legendas – atribuídas a Norbertto Lopes – contribui também, eficazmente, para o clímax narrativo, dando nota do talento dum realizador para usar todos os recursos do suporte literário, paralelamente à persuasão da imagem.   Quanto à virtualidade desta, e num prodígio de montagem, detenhamo-nos num trecho do arraial em que Peru toca acordeão e os pares bailam, ressaltando a intensa sugestão dum fundo musical. Mas para além disso, os episódios do arraial, tourada e procissão, resultam desajustados, independente-mente do cuidado de Leitão de Barros em registar o folclore, rituais e cerimónias de cunho popular (…) volta a ganhar especial relevo a sua tendência para a exibição da monumentalidade, ainda que forçada como deriva de celebrar o casamento de Maria e Manuel no Mosteiro da Batalha… ” [J. Matos-Cruz, Textos CP – Pasta 55]

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