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Observações sobre o filme «Maria do Mar»

 

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"Leitão de Barros aborda pela primeira vez uma ficção de fundo, mas teve a colaboração de António Lopes Ribeiro como assistente e autor da sequência cinematográfica, do découpage, que garantiria um apoio técnico firme à encenação, como de facto aconteceu, apesar das fragilidades do enredo, de certas concessões ao sentimento, de certas desarmonias entre as interpretações dos actores profissionais e dos intérpretes estreantes e do povo. O fio da história é singelo e convencional: o registo mais feliz de Leitão de Barros refere-se à linguagem plástica das imagens e ao lado documental da acção. (...) A composição, o enquadramento, o recorte da fotografia (desta vez assinada por Manuel Luís Vieira e Salazar Dinis), transformam muitos dos planos deste filme numa autêntica pintura em movimento. Leitão de Barros manifesta também a sua audácia e a sua modernidade (...) no modo como revelou sensualmente os corpos e como insinuou um claro erotismo em algumas cenas (o pai afagando os seios da filha, o pescador quase nu trazendo a rapariga nua sob o vestido molhado, a recortar-lhe as formas, o banho das jovens perto da foz), dando aos comportamentos uma outra verdade e uma motivação mais intensa: o convencionalismo da história desaparece ante a força anímica das relações humanas. Do ponto de vista da acção, a sequência do drama não passa da vulgaridade, mas logo sobe de tom quando o documento domina o enredo. (...) Luís de Pina, in História do Cinema Português, ed. Europa-América, col. Saber, 1986.

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