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Cinema Sonoro

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Os intérpretes de «A Canção do Berço»

 

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Os intérpretes eram:  CORINA FREIRE como Clara Serrano; Raul de Carvalho no papel do Dr. Stanley; Alves da Costa como Jim Grey; Alexandre Azevedo como Sr. Ashmore; Ester Leão no papel de Madame Ashmore; António Sacramento como Cyrii Belloc;o jovem Guilherme Reis no papel de Bobby, a criança desaparecida e ainda Alzira Gueta no pequeno papel de uma Criada.
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O argumento de «A Canção do Berço» - Parte III

 

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A primeira visita que Clara faz a Ashmore, resulta improfícua. O velho nega-lhe qualquer veracidade na palavra de Jim. Seu filho, sabia-o ela, devia estar crescidinho, meninote, mesmo. Mas não estava com ele e nem ele sabia nada disso. Desesperada, Clara procura o recurso extremo: um advogado. Ele resolveria o seu problema e tiraria o filho das mãos de Ashomre, se verdade fosse aquilo que Jim lhe havia dito. O advogado que ela procura é o Dr. Stanley, conhecido e proficiente jurisconsulto e, infelizmente para ela, advogado justamente do industrial Ashmore que ela queria processar. Desesperada, sem mais recursos, explica ela toda a sua situação de desespero ao Dr. Stanley e ele, sob sua palavra, lhe diz que tem a plena certeza de que o filho do casal Ashmore é deles, realmente, pois sempre acompanhara a vida de ambos e jamais haviam tido segredos para com ele. Suavizada, em parte, pelas declarações que lhe presta Stanley, Clara retira-se e, para melhor esquecer o seu infeliz passado e a eterna agonia da procura do filho, dedica-se com alma aos estudos musicais, até conseguir, depois de muita peripécia e esforço, um lugar saliente na ópera de Berlim. Artista célebre, em pouco tempo, Clara faz-se de viagem para os Estados Unidos, novamente e, sempre se lembrando do filho, torna a procurar o Dr. Stanley. Ele não a reconhece.

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  O episódio da criança dos Ashmore é que o põe ciente de quem se tratava. Não querendo acreditar, ainda, ele deixa-se engolfar pela impressão forte que lhe causa Clara, lindíssima, como nunca pensara que ela conseguisse ser e, saindo disso, continua a convence-la da quase inutilidade dos seus esforços. Clara, ali, tem, agora, outra recepção e outra atenção. Modificada, completamente, é uma mulher chique, cheia de fortuna e capaz de converter em admirador, qualquer homem, por mais sisudo que ele seja. A conversa recai sobre o filho dos Ashmore e como ela percebe claramente, que Stanley fora iludido pelo cunhado, ela lhe diz que a deixe falar com o pequeno e que, depois disso, dirá se é ou não o seu filho desaparecido. Um sinal que ele tinha seria o suficiente para provar o quanto ela dizia. Satisfeita a sua vontade, graças á intervenção de Stanley, já mais do que simples advogado dando conselhos úteis a uma cliente, consegue ela que os Ashmore lhe mandem o filhinho para um encontro. Madame Ashmore, entretanto, faz vestir o filho da cozinheira, um garoto mudo, da mesma idade de Bobby com as roupas dele e ela própria leva-o á presença de Clara. Desorientada, ela pede-lhe desculpas. Reconhece que o filho não é seu, Madame Ashmore é que se desculpa: - "Era por causa disso que tinha vergonha de lhe mostrar o pequeno..." E Clara ainda sente pena daquela " pobre" mãe. . . É na casa de Stanley que o primeiro encontro entre mãe e filho tinha que se dar. Ela, convidada por Stanley resolvera aceitar o convite para passar uma tarde na sua casa de campo. Stanley já a amava profundamente e ela também correspondia a esse puro afecto daquele distintíssimo cavalheiro. Bobby, por sua vez, ali se achava por ter discutido com seus pais e, genioso, correra para a casa do tio a fim de se vingar da hostilidade que lhe movera a mãe. Na lancha, á beira do rio, encontra-se ela com o garoto e é por este, convidada para um passeio. Aceita, sem saber que ele é seu próprio filho. Numa curva perigosa, a lancha tomba ao rio e ela, quase com sacrifício de sua vida, salva-se e salva ao pequeno. Ele, abatido, é acometido de uma violenta febre e, delirando, reclama por sua mãe. Defronte ao leito, Stanley compreende que Bobby é filho de Clara. Não podia haver duvida. E ele convida delicadamente Madame Ashmore a renunciar ao seu desejo cruel de separa-los. Ela aceita e o marido também. Com as melhoras de Bobby, Clara pode entregar- se com mais felicidade ao amor dedicado que lhe oferece Stanley. Era felicidade dupla. Encontrara seu filho e, ao mesmo tempo, o marido perfeito para seu coração amoroso. 3
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O argumento de «A Canção do Berço» - Parte II

 

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- Se tens amor ao teu filho, saberás trabalhar. Dinheiro emprestado, Jim, não dou a ninguém!

Perambula por aqui, por ali, sem nada encontrar. Uns anúncios mostram-lhe a vantagem de ser fuzileiro naval. "Conheça o mundo!" Viagens, aventuras... Jim alista-se. E para celebrar o alistamento, entra com os companheiros e "amigos' em uma grossa bebedeira. De volta para casa, altas horas, e não encontrando Clara, que saíra para comprar um pouco de alimento para o pequeno, apanha-o e sem sequer reflectir, leva avante o seu plano. Enrola-o e sai para leva-lo á um orfanato. Quando Clara chega, louca de dor, já compreende o plano do marido, corre em busca de Cyrii Belloc, amigo e vizinho que muito os ajudava sempre, e com ele põem-se em busca de qualquer vestígio que denunciasse o paradeiro de ambos. Nada entretanto conseguem. A mágoa de Clara é intensa. Seu coração sofre brutalmente. Passam-se armos. Vamos encontrar Clara, agora, em pleno "front", servindo na Cruz Vermelha americana, auxiliando a aliviar os sofrimentos daquela quantidade enorme de feridos e agonizantes. Entre os homens que lhe chamam a atenção está um que já tentara por vezes conhecer. Quando, á noitinha cantava a "Canção do Berço", cantiga sentimental com a qual costumava embalar seu filho, ouve que ele se mexe e volta-se para ela. Desfaz-se a mascara do esquecimento. Recorda-se ela, num instante, de quem é ele: Jim!! Seu marido! Mortalmente ferido e completamente perdido, nos últimos instantes de vida. As palavras de Clara, rápidas, ferem-lhe os ouvidos.

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  — Onde está nosso filho, Jim? Para onde o levaste? Diz-me! Não faço outra cousa senão procura-lo! Jim ouve-a. Raciocina. Compreende tudo aquilo e, num último esforço, quase num arranco, diz-lhe, impetuosamente, tombando morto; depois da palavra que lhe custa um verdadeiro sacrifício pronunciar, naquela extrema agonia: — Ashmore!!! E é com este nome que Clara passa seus últimos dias no "front" e com ele, sempre na memória, que de novo atravessa o oceano, de volta, em busca do seu filhinho adorado.

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O argumento de «A Canção do Berço»

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— Vamos. Tem coragem! Levanta-te, sai daí e vai trabalhar. És tão preguiçoso... - Falava Clara Serrano, diante de um fonógrafo, ensaiando os primeiros passos da nova dança que estudava para o acto de variedades ao qual pertencia. Já tinha cuidado de tudo, arrumado o quarto todo. Exercitava-se, pela luta da vida e aborrecia-se muito vendo a indolência de Jim, estirado sobre o leito, preguiçoso como ninguém e desalentado como nenhum outro. — Deixa-me em paz! Dança! Dança! até que te arrebentes... – diz-lhe o marido Eram palavras assim que ela ouvia sempre. Estavam casados há já algum tempo e embora amasse o marido com toda a sua força, nada mais fazia ela, do que sustenta-lo e ouvir-lhe os desaforos. Jim dormia e Clara fazia todo o serviço e ainda ensaiava para os bailados da noite. Ele tinha sido "chauffeur", mas depois de entrar para a vida de teatro, acha-a deliciosa e já não queria fazer mais nada. Mas o primeiro passo que ele e a mulher haviam dado para vencer, na arte, fora um tremendo fracasso. Clara conseguira colocar-se e ao esposo num número de variedades e, quando estrearam, foram os mais completos insucessos que já se haviam visto em todo o mundo. Ela desanimara um pouco. Passara a estudar com maior carinho, com maior dedicação. Ele, entretanto, vagabundo de origem, preferia continuar a dormir, sem ligar a nada, certo de que ela cuidaria de tudo, inclusive pela manutenção do lar... A vida, para ambos, faz-se um tormento. A senhoria não os deixa. E dinheiro não há para pagar os alugueres em atraso. A companhia de gaz acabara de cortar o combustível por falta de pagamento e, assim, nem sequer podem aquecer o leite do seu filhinho. Se ao menos tivesses o teu antigo emprego de "chauffeur”

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  "Chauffeur", eu?... Sei que agora só queres ser artista, bem sei... Mas o resultado é esta desgraça em que nos encontramos... E que culpa tenho eu? Sempre falavas num filho. Ele aí está. Sustenta-o! Depois, pensando melhor, dava a sugestão mórbida e inescrupulosa que lhe ditava o pouco escrúpulo de marido e a total ausência de amor de pai. — Queres-te ver livre dele? Interna-o num orfanato! Ninguém saberá. - Isso nunca! Eu dele jamais me separarei. E era a luta de todos os dias, a questão eterna que surgia por qualquer motivo. Levantava-se ele. Preparava-se, cantarolando, comia o pouco que havia por ali e saia. Á porta a mulher gritava-lhe, num assomo de desespero. - Sem o dinheiro do aluguer não me apareças aqui, Jim! E ele saia sem a menor intenção de lhe dar confiança...   A lembrança maior que acudiu ao cérebro de Jim, naquele instante, para ver se conseguia dinheiro, não para o aluguer da casa, não, mas para a jogatina que o espera, é procurar Ashmore, dono de uma importante fabrica e na qual seu pai fora empregado e pedir-lhe dinheiro. Ashmore, entretanto, veda-lhe todas as vasas e não lhe dá o menor "cêntimo" Aconselha-o a trabalhar e nem sequer dá ouvidos as lamurias dele quando cita a infelicidade da esposa e a fome do filhinho... CONTINUA...    
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«A Canção do Berço» estreia a 22 de Dezembro de 1930

 

«A Canção do Berço» foi portanto a primeira produção falada em Português que a Paramount estreou no nosso país. A expectativa era por isso enorme. As filmagens e sonorização decorreram nos estúdios da Paramount em Joinville, nos arredores de Paris. O filme «A Canção do Berço» surgiu do filme americano «Sarah and Son» que Ruth Chatterton interpretara magistralmente. Os artistas eram todos conhecidos do grande público: Corina Freire, Raul de Carvalho, Ester Leão, Alexandre de Azevedo, Alves da Costa e Guilherme Reis. O filme estreava a 22 de Dezembro de 1930 no Cinema Tivoli, alcançando um enorme êxito na altura.

 

 
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Finalmente cinema sonoro em Portugal

I0011029-02PX=000000PY=000000 Em 1930 estreia-se em Portugal o filme «Sombras Brancas no Mar do Sul». Era o primeiro filme sonoro a estrear em Portugal e provocou verdadeiras avalanches de público. Ficava claro o seguinte: era urgente a produção de filmes sonoros entre nós. Mas, a falta de meios técnicos, falta de dinheiro e de um estúdio adaptado a essa realidade levantavam grandes dificuldades à concretização desse sonho. Ao fim de largos meses a ouvir-se apenas a voz de artistas estrangeiros em filmes sonoros, a notícia caiu que nem uma bomba no nosso meio artístico e não só: anunciava-se a vinda a Portugal do realizador brasileiro Alberto Cavalcanti, a fim de contratar artistas portugueses para o filme falado «A Canção do Berço». A Paramount dispunha-se a filmar simultâneas versões em idiomas diferentes dos seus filmes. Após criteriosa selecção levada a cabo por Cavalcanti, algumas semanas mais tarde partiam para Paris, os artistas portugueses: Ester Leão, Corina Freire, Raul Carvalho, Alexandre de Azevedo, António Sacramento, Alves da Costa e o pequeno Guilherme Reis." Depois deste filme, a Paramount faz outros.” – Anunciavam as revistas e jornais da época. Evidentemente que uma das razões que moveram a Paramount nessa iniciativa — era satisfazer o Brasil, que, como se sabe, teve sempre um culto decidido e franco pelo cinema americano —- razão essa porque a Paramount  teve no mercado brasileiro uma formidável rede distribuidora que lhe permitiria a sua actual e arrojada iniciativa. Mas isso não interessava nada, o que importava era que finalmente se ia ouvir cinema falado em português. (A actriz Ester Leão assinando o seu contrato com a Paramount perante o realizador Alberto Cavalcanti)
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O nascimento do cinema sonoro

Al Jolson Jazz Singer Premiere O ano de 1927 ocupa, dentro do panorama movimentado e empolgante da história do cinema, uma posição não só das mais importantes como das de maior significado na sua trajectória para o futuro. Operava-se na América do Norte uma reviravolta espectaculosa, lançando os esmagadores alicerces de uma modalidade nova. O cinema sonoro nascia e instalava-se com um à-vontade e força surpreendentes. A 6 de Outubro desse ano surgia o primeiro filme sonoro: «O Cantor de Jazz». O sucesso foi imediato. E, daquele país, o fonocinema galgava, avassaladoramente, os continentes, conquistando por todos os países adeptos, ferrenhos, impondo-se e fixando-se como triunfador. Escassos meses depois, a Europa, por sua vez, apressadamente apetrechava-se e procurava adestrar-se convenientemente, por forma a corresponder à expectativa, ao interesse, ao entusiasmo suscitado pelos filmes sonoros vindos dos estúdios americanos e projectados em grande escala nos écrans de cinema do velho continente. Portugal não devia, também estar ausente ou ficar indiferente ao movimento que se observava nos grandes países. E não ficou, na verdade, como se pode apreciar, para o prestigio nosso e orgulho daqueles que, desde logo, acreditaram incondicionalmente no cinema sonoro. Evocar essa época é, sem dúvida, reviver um dos mais belos e agitados momentos da história do cinema português.
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